A Origem da ROTA – Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar

Publicado por Camila Goulart 4 semanas atrásNenhum comentário
 Márcio Santiago Higashi Couto

Origem da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Em 15 de Outubro de 2020, a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), irá comemorar 50 anos de seu surgimento. Para conhecermos como se deu este processo, precisamos recuar no tempo, até a fundação da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Após o conturbado período da declaração da Independência do Brasil, em 1822, da Guerra da Independência, contra tropas portuguesas, em território brasileiro, até 1824, e da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho, que tinha apenas 5 anos, e que viria a tornar-se, posteriormente, D. Pedro II, o Brasil entrou em uma complicada situação política, no período conhecido como período regencial, onde uma junta governava o Brasil, aguardando que o príncipe atingisse a maioridade.

A instabilidade institucional estava instaurada. Segundo o historiador, Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Edilberto de Oliveira Melo em seu livro “Raízes do Militarismo Paulista” (1982), o Padre Diogo Antônio Feijó, que havia assumido o Ministério da Justiça, em 5 de julho de 1831, criou, rapidamente, em 18 de agosto do mesmo ano, a Guarda Nacional,

Essa Guarda Nacional, foi criada para defender a Constituição, a Liberdade, a Independência e a Integridade do Império, auxiliando o Exército Brasileiro, na defesa das fronteiras e das costas. Seus integrantes eram civis, sem formação militar, que recebiam postos e graduações, semelhantes às do Exército Brasileiro, de acordo com a sua situação social e econômica, e recebiam treinamento básico, e armamento e fardamento, muitas vezes custeados por eles mesmos.

Mas, a criação da Guarda Nacional, não trouxe o sentimento de segurança que a Regência, e a Monarquia, precisavam, para manter a coesão nacional e o Império Brasileiro.

Para ajudar o Exército e a Guarda Nacional, em 30 de agosto de 1831, a Regência autorizou a criação da Guarda Municipal Permanente, que na prática, seria uma força militar estadual.

Seriam soldados profissionais, treinados como o exército, mas organizados, equipados e pagos pelas províncias, o equivalente, aos atuais estados, na época do Império. Esse foi o embrião das atuais Polícias Militares, Estaduais (Malvásio, 1967).

Uma das forças criadas, nessa época, foi o Corpo de Guardas Municipais com voluntários a pé e a cavalo, na província de São Paulo, por seu presidente (como era chamado na época o governador), o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, em 15 de dezembro de 1831, composta por 100 homens a pé, comandados pelo Capitão José Gomes de Almeida e 30 homens a cavalo comandados pelo Capitão Pedro Alves de Siqueira, e que deu origem a atual Polícia Militar do Estado de São Paulo (Camara, 1982).

O Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.

Figura 1. O Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.

Figura 1. O Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.

Fonte: Centro de Comunicação Social da PMESP.

Rafael Tobias de Aguiar, nasceu em Sorocaba, em 04 de outubro de 1794 e foi um grande político e militar paulista, tendo governado a província de São Paulo por duas vezes, de 17 de novembro de 1831 a 11 de maio de 1835 e de 6 de agosto de 1840 a 15 de julho de 1841. Recebeu o título de Brigadeiro, da Guarda Nacional. Faleceu no Rio de Janeiro em 7 de outubro de 1857 (Irmão, 1992).

Após ter mudado de nome algumas vezes, e de ter participado de eventos como a Guerra do Paraguai (1864-1870), a milícia paulista, com a lei nº 17, de 14 de novembro de 1891, foi reorganizada como a Força Pública do Estado, composta por 3940 homens, distribuídos em quatro corpos militares de polícia, uma companhia de cavalaria, um corpo de urbanos e um corpo de bombeiros (Camara, 1982).

O 1ºBatalhão.

Além dessa reorganização, em 1º de dezembro de 1891 foi inaugurado um novo quartel, na Avenida Tiradentes, bairro da Luz, na cidade de São Paulo, construído especificamente para a Força Pública, projeto do conceituado arquiteto Ramos de Azevedo. Lá foram sediados os 1º e 2º Corpos Militares (batalhões). O 1ºCorpo Militar atualmente é o 1ºBatalhão de Polícia de Choque “Tobias de Aguiar”, sede da ROTA. O 2ºCorpo Militar, atualmente é o 2ºBatalhão de Polícia Militar Metropolitano “Herculano de Carvalho e Silva”, o “Dois de Ouro”.

Figura 2. Vista aérea do Quartel da Luz, sede do 1ºBPChq “Tobias de Aguiar”, foto dos anos de 1990.

Fonte: Arquivo fotográfico. 1ºBPChq.

Este 1ºBatalhão participou de vários momentos históricos, do Brasil e do Estado de São Paulo, como as campanhas do Paraná, Revolta da Armada e Revolução Federalista, entre 1893 e 1894, a campanha contra a Revolta de Canudos, em 1897, Revolta de Vacina, em 1904, Revolta dos Marinheiros, em 1910, no combate ao levante do Forte de Copacabana, em 1922, na Revolução Paulista de 1924, com intensos combates, na região do quartel da Luz, campanhas do Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso, em 1924-25, e Goiás em 1926, revolução de 1930 e participação destacada na Revolução Constitucionalista de 1932, além de missões de proteção de instalações vitais, no Estado de São Paulo, contra sabotadores, durante a 2ªGuerra Mundial (Malvásio, 1967).        

Em 1º de dezembro de 1951, através do decreto 20.986, o 1ºBatalhão de Caçadores da Força Pública, passou a denominar-se “Batalhão Tobias de Aguiar”, ostentando, a partir de então, o nome do patrono da Milícia Bandeirante.  

Figura 3. Brasão do Batalhão “Tobias de Aguiar”.

Fonte: Foto do autor.

O Terrorismo. Roubos a Banco.

Após o início do governo militar no Brasil, em 31 de março de 1964, movimentos de orientação socialista e comunista passaram a promover algumas ações contra o regime, entre 1965 e 1967, mas foi, após o governo baixar em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº5, que endureceu algumas medidas de restrição de direitos, que apareceram vários grupos subversivos como a Aliança Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), entre outros, que, além de focos de guerrilha rural, passaram a fazer ações de guerrilha e terrorismo urbano, como ataques a alvos militares, para conseguir armas, além de realizarem ataques com bombas, sequestros e roubos a banco, para conseguir fundos, para financiar suas atividades.

Um exemplo desses roubos a banco, ocorreu em 9 de maio de 1969, em uma ação liderada pelo ex-capitão do Exército Brasileiro, Carlos Lamarca, que havia desertado, em janeiro do mesmo ano, do quartel em que servia, em Osasco, levando várias armas para a guerrilha, ingressando no VPR.

Figura 4. O ex-capitão e desertor do Exército Brasileiro, Carlos Lamarca. Exímio atirador, ironicamente, foi encarregado de instruir funcionários de bancos, no uso de armas de fogo, meses antes de desertar.

Fonte: UOL notícias.

Nesse roubo, na cidade de São Paulo, simultâneo a dois bancos, bem próximos, uma agência do Banco Mercantil de São Paulo e outra do Banco Itaú, um grupo de dezesseis guerrilheiros, bem organizados e bem treinados, armados com armas automáticas e granadas, fechou a rua Piratininga e realizou o ataque, onde o Guarda Civil Orlando Pinto Saraiva, que estava escalado de serviço, na rua onde se situavam os bancos, ao se aproximar para tentar intervir no roubo, foi morto por Lamarca, com dois tiros na cabeça. Os guerrilheiros conseguiram fugir, levando uma grande quantidade de dinheiro.

Poucos dias depois, em 5 de junho de 1969, na Avenida Penha de França, nº434, na zona leste da cidade de São Paulo, o Soldado da Força Pública, Boaventura Rodrigues da Silva, do 2º Batalhão Policial, o “Dois de Ouro”, que fazia a guarda de uma agência do Banco Tozan, foi atacado por quatro terroristas, que atiraram contra ele e lhe tomaram a metralhadora INA, calibre .45 que portava, ao que, mesmo ferido, o Soldado Boaventura, sacou um revólver calibre .38 e atirou contra os bandidos, possivelmente ferindo dois. O veículo com os terroristas evadiu-se do local, e o Soldado Boaventura Rodrigues foi socorrido ao hospital, mas faleceu.

A “ronda bancária”.

Ainda no segundo semestre de 1969, aumentaram os casos de roubos a banco, praticados por grupos subversivos. Desta forma, a Força Pública do Estado de São Paulo e a Guarda Civil do Estado de São Paulo, (criada em 1926, e unificada com a Força Pública, em janeiro de 1970, formando assim a Polícia Militar do Estado de São Paulo) passaram a intensificar as rondas e a colocar mais policiais próximos aos estabelecimentos bancários.

Esta atividade, passou a ser conhecida como “Ronda Bancária”, executado pelos batalhões da Força Pública, como por exemplo o 2º Batalhão Policial, na zona leste da cidade de São Paulo, o 9º Batalhão Policial, em parte da zona norte e o 11º Batalhão Policial, responsável por parte da área central da cidade de São Paulo. O 1º Batalhão Policial “Tobias de Aguiar”, devido à sua localização, foi encarregado de realizar a “ronda bancária”, em parte do centro da cidade de São Paulo, pois havia uma grande concentração de bancos nessa região.  

A atividade de patrulhamento ostensivo motorizado da Força Pública, era uma certa novidade nessa época, pois, devido a escassez de viaturas, a maior parte do patrulhamento era realizado por policiais a pé. Havia um serviço novo, de Rádio Patrulha, com uma viatura pequena (fusca laranja e preto) com dois homens, e alguns batalhões contavam com a Ronda Ostensiva Especial (ROE, viatura corcel, também laranja e preta, com dois ou três policiais, precursora do Tático Móvel) mas isto seria insuficiente para enfrentar grupos grandes de guerrilheiros, bem armados e treinados, que iam roubar os bancos.

O 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar” (1ºBP), conforme documentação pesquisada pelo Coronel Paulo Adriano Telhada, em seu livro Quartel da Luz, A Mansão da ROTA (2011), segundo o Boletim Geral nº7 da Força Pública do Estado de São Paulo, de 10 de janeiro de 1969, passou a ser uma Unidade de Choque, com uma Companhia de Comando, um Canil, o Departamento de Polícia Militar (DPM, embrião da atual Corregedoria da Polícia Militar), e duas Companhias de Policiamento Auxiliar (CPA, companhias de Choque, encarregadas de Controle de Distúrbios Civis).

O Comandante do Batalhão Tobias de Aguiar, de 23 de fevereiro de 1967 até 11 de setembro de 1969 foi o então Tenente Coronel Altino Magno Fernandes. No começo de 1969 encontrava-se como subcomandante da Unidade, o então Major Salvador D’Aquino.

O Batalhão “Tobias de Aguiar”, como Tropa de Choque, era equipado com veículos blindados de Controle de Distúrbios Civis, para transporte de tropas e equipados com canhão de água, os “Tatus”, de  e os “Brucutus”, além de viaturas de transporte pesadas (caminhões), médias (pick-ups) e leves (jipes).

Figura 5. Alguns dos Oficiais que serviram no 1º Batalhão “Tobias de Aguiar”. Entre eles, o então Capitão Salvador D’Aquino, futuro comandante do BTA. Ao fundo, um dos veículos blindados da “Tropa de Choque”.

Fonte: Arquivo fotográfico do 1ºBPChq.

A 1º Companhia de Policiamento Auxiliar (1ªCPA), era destacada no prédio da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), no Largo General Osório, nº66, e a 2ª Companhia de Policiamento Auxiliar (2ªCPA), era sediado no “Batalhão Tobias de Aguiar” (BTA), no Quartel da Luz.

As CPA eram compostas por homens selecionados e treinados constantemente. Cada pelotão tinha seu próprio Tenente comandante e o efetivo era reforçado. A Tropa de Choque tinha fama de ser bem aguerrida, disciplinada e preparada. Possuíam as melhores armas e equipamentos disponíveis na Força Pública, embora já fossem tecnologicamente ultrapassados, comparando-se, por exemplo, com o armamento usado pelas Forças Armadas Brasileiras, naquela época.

No segundo semestre de 1969, a 1ªCPA, comandada pelo então Capitão Iser Brisolla, permaneceu responsável pelo controle de distúrbios civis, e a 2ªCPA, comandada pelo então Capitão Milton Silva Calciolari, e depois pelo Capitão Edmundo Zaborski, foi encarregada de realizar a “ronda bancária” na área de responsabilidade do 1ºBatalhão “Tobias de Aguiar”, no centro da cidade de São Paulo.

Para realizar essa “ronda bancária”, a tropa do BTA utilizou, inicialmente, dois jipes Willys e duas pick-ups Chevrolet C15, de capota aberta. Estas viaturas C15 possuíam, além dos bancos para o motorista e o passageiro da frente, dois bancos de madeira, na carroceria, cada banco com capacidade para transportar quatro militares.

Figura 6: Estas viaturas C15 foram usadas para a “ronda bancária”, do 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, em 1969.

Fonte: Arquivo fotográfico do 1ºBPChq.

As armas eram, além de revólveres calibre .38, marcas Colt e Taurus, fuzis alemães Mauser, modelo 1908, calibre 7mm Mauser, metralhadores de mão brasileiras, da Industria Nacional de Armas (INA), modelo M953, calibre .45, metralhadoras de mão alemãs Schmeisser, MP28 II, calibre 7,63mm Mauser e algumas pistolas-metralhadoras alemãs, Mauser C96 calibre 7,63 mm Mauser, chamadas, equivocadamente, de “Parabellum”. É importante ressaltar, que algumas dessas armas eram bem antigas, de modelos que começaram a ser produzidos antes do início da 2ªGuerra Mundial, em 1939.  

O uniforme adotado foi o uniforme padrão da Força Pública, na época, para atividades operacionais, botas de couro de cor preta, calça de tergal de cor cinza, camisa de tergal de cor bege, cinto de lona cinza com fecho de metal, cinturão de lona marrom com coldre, e capacete de fibra de vidro na cor preta, coberto por uma capa com estampa semelhante à pelagem de um leopardo, que foi apelidado de “capacete cor de tigre”.  

Assim, melhor equipada e treinada, do que o restante do efetivo regular da Força Pública, estas equipes patrulhavam, com seus veículos, com guarnição reforçada, as avenidas e ruas com grande concentração de agências bancárias, principalmente no centro da cidade de São Paulo, visando inibir a ação dos grupos de guerrilheiros.

Realizando esta “ronda bancária”, o efetivo do BTA passou a ser conhecido, naturalmente e de forma não oficial, como a Ronda do “Tobias de Aguiar”, visto este ser o nome do Batalhão, e estar escrito no para-choques e na lataria das viaturas.

O surgimento da ROTA.

Em 12 de novembro de 1969 assumiu o comando do 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar” o Tenente Coronel Salvador D’Aquino, permanecendo no comando até 12 de janeiro de 1975. Tendo passado grande parte de sua carreira no BTA, o Coronel D’Aquino era conhecido por ser disciplinado e disciplinador, e um profissional zeloso e muito capaz.

 Ciente da situação, social e política, pela qual o Brasil passava na época, e das transformações pelas quais a própria Força Pública passava, com sua unificação com a Guarda Civil, passando a ser a Polícia Militar do Estado de São Paulo, com o aumento da violência praticada pelos guerrilheiros, em seus ataques, e reconhecendo que a “ronda bancária “ do BTA, havia surtido efeito, para inibir os roubos a banco, na área onde atuava, resolveu melhorar e ampliar este serviço, oficializando a Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar.

Desta forma, segundo documentação coletada pelo Coronel Telhada (2011), em 27 de janeiro de 1970, por ordem do Ten Cel D’Aquino, o Capitão José Vicente Marino, Oficial S3 (encarregado do planejamento) da Unidade e o auxiliar S3, 1º Tenente Milton Ferreira de Souza, elaboraram o documento chamado de Plano de Execução: ROTA- Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar”.

Este documento descrevia a SITUAÇÃO: “Como é do conhecimento geral, a denominada região da “Grande São Paulo” vem sendo alvo de vários grupos que aperfeiçoam seus métodos criminosos diuturnamente e praticam assaltos, saques e atentados, cada vez mais audaciosos. Necessário se faz que a polícia se modernize e se equipe para fazer frente a essa situação.

Em termos de eficiência, não se pode dispensar qualquer dos elementos da trindade homem-viatura-comunicação, que é fundamental ao êxito de qualquer serviço policial.

O atual tipo de policiamento a pé, executado por homens isolados ou em dupla, urge ser substituído por patrulhas motorizadas, bem armadas e dotadas de rádio comunicação.

O tipo de policiamento proposto, objetiva impressionar a população, inspirando-lhe segurança, e aqueles que desejam violar as leis, para que sintam a certeza da repressão imediata, através da onipresença da polícia e de seu aparelhamento para o combate do crime”.

Quanto a MISSÃO, o documento traz que a MISSÃO GERAL é “durante o dia, e às primeiras horas da noite, patrulhar as zonas de maior concentração bancária e comercial, como lugares de possível reunião de marginais. Durante a noite e a madrugada, realizar batidas em bares da periferia e locais suspeitos.”

A MISSÃO PARTICULAR seria: “Auxílio a policiais e ao público em geral, captura de bandidos ou terroristas, perseguição a veículos roubados, atendimentos de ocorrências policiais de modo geral, inclusive prestação de primeiros socorros, em vítimas de acidentes ou delitos. As equipes poderão, em conjunto, executar, diariamente a “Operação Arrastão”, porém com planejamento variando de local após uma hora ou duas.”

A EXECUÇÃO, com relação à AREA DO POLICIAMENTO: “Mediante levantamentos dos S2 (serviço de inteligência) das Unidades, em ligação com o F2 do QG, dos locais de maior incidência de criminalidade, bem como de concentração comercial e bancária, serão periodicamente estabelecidos os setores a serem patrulhados, com maior intensidade. Inicialmente, o policiamento restringir-se-á à Zona Central da Capital, podendo, após estender-se pela “Grande São Paulo”.”

A COMPOSIÇÃO DOS MEIOS, seria realizada por PESSOAL: “Tropa da 2ªCPA e da 3ªCPA, constituída por 02 pelotões, devidamente enquadrados por oficial, sendo um no policiamento e o outro, como reserva, na sede do 1ºBP.

O pelotão de policiamento será composto de 06 equipes, constituídas de 01 motorista; 04 cabos ou soldados e 01 sargento, comandante da equipe.

O oficial fará a fiscalização das demais equipes e executará também o patrulhamento, devendo dirigir-se aos locais de ocorrências mais graves. Na sede do 1ºBP, funcionará um Rádio Operador, com a função de controlador, devendo transmitir as ordens especiais ao pessoal das equipes, bem como dar informações e anotar as ocorrências atendidas.”

Com relação ao ARMAMENTO E MATERIAL: “Todos os homens portarão armas de defesa (pistola ou revólver) e cassetete. A equipe deverá contar com duas metralhadoras, uma arma de tiro preciso (fuzil ou carabina), algemas, munição química, máscaras contra gases, faroletes, estojo de primeiros socorros, guia da cidade, talão de ocorrência, extintor de incêndio e cones de isolamento.

Os meios de VIATURAS E COMUNICAÇÕES: “Nove viaturas, tipo perua, capacidade para 06 pessoas, dotadas de rádio comunicação, sendo 06 para o policiamento e 03 na reserva. Um veículo tipo furgão para transporte de pessoas. Na sede do 1ºBP, deverá haver um aparelho de rádio para escuta da cabine centro da Rádio Patrulha, para que as viaturas sejam informadas das ocorrências mais graves.”

Nas PRESCRIÇÕES DIVERSAS: “Metade das viaturas, durante o dia e primeiras horas da noite, ficarão estacionadas em pontos estratégicos, devendo ser substituídas cada três horas, para descanso dos veículos, pelas que esteja rondando.

Em princípio, as viaturas não levarão as partes aos distritos, providenciando a presença de Rádio Patrulha no local, para que o policiamento não fique desfalcado, devido à demora comum na liberação dos condutores.

Quando uma equipe estiver atendendo a ocorrência de pouca gravidade e for solicitada para fato mais grave, o Comandante da patrulha deixará um homem no local, para resolver a primeira, e dirigir-se-á ao local da segunda com o restante do pessoal.

A seleção dos homens para a execução do serviço é fator importante para o desempenho da missão.

As viaturas em policiamento correrão em auxílio das Rádio Patrulhas, que se defrontem com ocorrências que necessitem de reforço, quando solicitado”.

Com relação as viaturas, no mês de fevereiro de 1970, o 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, recebeu 5 novas viaturas Chevrolet, modelo C14, depois conhecidas como “Veraneio”, e que seriam utilizadas no Patrulhamento de ROTA.

Figura 7. Uma das primeiras viaturas C14 da ROTA, a veraneio. Note que na época, não existia o “R” estilizado, na porta da viatura e nem o braçal de couro.

Fonte: Arquivo fotográfico do 1ºBPChq.

Ao analisarmos, com a devida atenção, este Plano de Execução, vemos que, há 50 anos atrás, a ROTA surgiu como uma inovação, em vários aspectos, revolucionária para aquela época e atual até os nossos dias.

A análise da situação da segurança pública, na época, ameaçada pelos grupos de terroristas, que agiam com muita violência e poder de fogo, o aparecimento de grupos de marginais comuns, que passaram a se organizar, exigiram a criação de um grupo policial, melhor treinado, armado e equipado.

Como vemos, nas Prescrições Diversas, a preocupação com o capital humano, com o homem, era a base, levando em conta a importância da seleção, para compor a nova modalidade de policiamento.

Outro ponto importante, ao qual foi dado ênfase neste Plano de Execução, são as comunicações, onde, além do rádio nas viaturas, havia um rádio, na sede do Batalhão “Tobias de Aguiar” e o monitoramento, das outras frequências de rádio, para ouvir sobre informações a respeito de ocorrências graves.

Figura 8. Antes do braçal, usava-se um dístico negro, com a sigla ROTA, bordada em vermelho. A boina negra, quando implantada, em dezembro de 1970, usava os dois fuzis cruzados, dos batalhões de caçadores, da Força Pública de São Paulo.

Fonte: Arquivo fotográfico do 1ºBPChq.

Uma das principais atribuições da ROTA, desde seu surgimento, é o apoio as Rádio Patrulhas, ao Policiamento de Área. A ROTA não é autônoma, ela sempre trabalhou integrada as demais unidades da Polícia Militar do Estado de São Paulo, apesar do péssimo comportamento de alguns de seus integrantes, de tentarem criar animosidades, se imaginando “superiores” aos demais policiais. O objetivo da ROTA não é “aparecer” ou “tomar ocorrências” dos outros, mas de apoiar, sempre que for necessário, os patrulheiros dos batalhões de policiamento de área.

Uma das características da ROTA, que não é tão vista, ou percebida, por quem não a conhece mais de perto, já estava presente em 1970.  O uso da atividade de inteligência, intimamente ligada ao planejamento. O levantamento de informações, utilizando as mais diferentes fontes, identificando criminosos, seus modos de operação e os locais onde estes atuavam e se encontravam, subsidiava o planejamento dos locais e horários, onde a ROTA iria atuar. Este é um dos diferenciais, que é mantido até os dias de hoje.

Este Plano de Execução para a Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar”- ROTA, de 27 de janeiro de 1970, foi encaminhado ao Comandante Geral da Polícia Militar, para aprovação. Em 9 de março de 1970, A Ordem nº24-210.Op, do Chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Estado de São Paulo, assinada pelo Coronel Altino Magno Fernandes (que havia sido Comandante do Batalhão “Tobias de Aguiar”, até alguns meses antes), continha o seguinte texto:

“De ordem do Exmo, Sr. Cmt Geral, essa Unidade deverá, a partir de 12 do corrente, 5ªfeira, dar início ao sistema de policiamento apresentado ao Estado Maior, utilizando-se das viaturas de que dispuser de momento. Manter o Estado Maior informado do resultado das ações.”

Mas, se como vimos, já existia um planejamento para a execução do patrulhamento chamado oficialmente de Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA, em 27 de janeiro de 1970 e uma autorização do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, para que a ROTA começasse  a operar, a partir do dia 12 de março de 1970, por que comemoramos o aniversário da ROTA em 15 de outubro? Infelizmente, os acontecimentos em abril de 1970 influenciaram isso.

A guerrilha do Vale do Ribeira.

Os movimentos subversivos no Brasil, além dos atentados a bomba, sequestros e roubos a banco, na área urbana, pretendiam implantar focos de guerrilha rural, seguindo o exemplo de movimentos revolucionários marxistas, como na China e em Cuba. Já no final de 1969, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), após reunir armas, roubadas do Exército Brasileiro e de ter conseguido uma boa soma em dinheiro, com os roubos a banco, resolveu começar a treinar seus “quadros”, em técnicas de guerrilha rural, em uma área de treinamento, além de tentar estabelecer uma base de operações segura, longe dos grandes centros urbanos (Telhada,2011).

A região escolhida pela VPR, foi uma área a cerca de 190 km da cidade de São Paulo, perto da cidade de Registro, em uma região conhecida como Vale do Rio Ribeira. É uma região, muito carente e esparsamente habitada, até os dias de hoje, pois se encontra entre o litoral de São Paulo e o Rio Ribeira, em plena serra do mar, com muita vegetação e topografia íngreme.

A VPR escolheu, para chefiar este centro de treinamento, o ex-capitão, desertor do Exército Brasileiro, Carlos Lamarca, que chegou à região em novembro de 1969. Em um pequeno sítio da região, cerca de 17 guerrilheiros se reuniram para os treinamentos.

Em 18 de abril de 1970, um dos guerrilheiros, que havia ajudado a organizar a área de treinamento, no Vale do Ribeira, foi preso no Rio de Janeiro, revelando a existência do local, mas não a localização exata dos guerrilheiros.

As forças do Exército começaram a vasculhar a área, fazendo algumas prisões. Alguns guerrilheiros conseguiram fugir da região, mas Lamarca e alguns outros, permaneceram escondidos na mata.

Assim, o 2ºExercito montou uma grande operação de busca, com efetivo do Exército, Força Aérea e Marinha, e da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Além do efetivo da região (7ªCompanhia Independente, em Registro), a PMESP reuniu efetivo de batalhões da capital, para enviar à região, entre eles, estavam homens do 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”. E parte desse efetivo, pertencia à Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA (Telhada,2011).

Em 28 de abril, seguiu para a região do Vale do Ribeira, o efetivo do BTA, com um capitão, quatro tenentes e 80 praças. Alguns dias depois, outra tropa do BTA, seguiu para a região, em 1º de maio de 1970, sob o Comando do Capitão Carlos de Carvalho e dois pelotões, comandados por tenentes. Um deles era o 1ºTenente Dalmiro Gomes e outro, o 2ºTenente Alberto Mendes Junior.

Alberto Mendes Junior.

O Tenente Mendes Júnior, nasceu em 24 de maio de 1947, na cidade de São Paulo. Filho de Alberto Mendes e Dona Angelina Plácido Mendes. Ingressou na Força Pública, por concurso público, em 15 de fevereiro de 1965, no Curso Preparatório de Formação de Oficiais (CPFO), concluindo o Curso de Formação de Oficiais (CFO), em 21 de abril de 1969.

Em 02 de julho, de 1969, foi classificado no 15º Batalhão Policial, e após o estágio, como Aspirante a Oficial, foi promovido, por merecimento, em 15 de novembro de 1969. Foi apresentado no 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, em 6 de fevereiro de 1970, por conveniência do serviço. Trabalhou, efetivamente, como comandante de pelotão, na 2ªCompanhia de Policiamento Auxiliar, onde foi um dos Oficiais responsáveis pela implantação da Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA.

Figura 9. O 2ºTenente Alberto Mendes Junior. Morto no cumprimento do dever, em 10 de maio de 1970, durante a guerrilha do Vale do Ribeira. Promovido postumamente à Capitão PM. Herói da Polícia Militar do Estado de São Paulo e um dos Oficiais pioneiros da ROTA.

Fonte: Comunicação Social da PMESP.

Contam, os Oficiais, que lá estavam a época, que, em 1º de maio de 1970, devido a falta de oficiais disponíveis, para irem para a missão em Registro, uma viatura foi chamar o Tenente Mendes, na casa dele, na Vila Galvão, em Guarulhos, e que havia trabalhado, no dia anterior, no patrulhamento de ROTA, estando de folga, para ir com a tropa.

Cerca de 1.500 homens das Forças Armadas e da PMESP participaram dessa operação de cerco e busca aos guerrilheiros, nas matas do Vale do Ribeira. Os homens da PMESP, faziam bloqueios nas estradas e guarneciam pontos estratégicos, como pontes, enquanto as tropas do exército se embrenhavam nas matas e revistavam sítios e chácaras, e fuzileiros navais patrulhavam, em botes, os rios da região. Com o passar dos dias, o comandante da operação, julgando que todos os guerrilheiros haviam deixado a região, passou a recolher a tropa e a diminuir o efetivo.

É preciso destacar que, apesar de toda a dedicação e entusiasmo, dos homens da PMESP e em especial do efetivo do BTA- ROTA, na operação, nossa tropa não estava preparada para aquele tipo de missão. Não tinham o treinamento adequado, para a guerra de guerrilhas, em ambiente de selva, e não possuíam equipamento necessário para isso. A comunicação era muito precária, não existindo equipamentos de rádio suficientes e em condições. O fardamento também, pouco ajudava contra a chuva e o frio, que castigavam constantemente o Vale do Ribeira. As armas, por sua idade, precariedade, e falta de manutenção, logo começaram a dar problemas. A munição era muito pouca, e a que havia disponível, era velha e mal conservada, sendo que, quando precisaram ser usadas, durante troca de tiros, muitas delas falharam. O comando e planejamento do exército, também deixou muito a desejar, deixando nossa tropa esparsa e não tomando importantes medidas de segurança.

O Tenente Mendes Junior e alguns homens do BTA, ainda permaneciam na operação, apoiando as tropas do Exército e o efetivo da PMESP de Registro. Mendes se apresentou voluntariamente, para ficar, quando parte da tropa do BTA recebeu ordens para regressar para São Paulo, em 8 de maio de 1970.

Nesse mesmo 8 de maio, os 8 guerrilheiros restantes, que se encontravam ainda escondidos na mata, Yoshitani Fujimori, Diogénes Sobrosa de Souza, Ariston de Oliveira Lucena, José Lavechia, Darci Rodrigues, Edmauro Gopfert, José de Araújo Nobrega, liderados por Carlos Lamarca,  notando que o cerco estava se abrindo, e que parte da tropa já tinha deixado a região, alugou uma caminhonete Ford, F350 e se preparam para fugir. No entanto, o homem que alugou o caminhão para os guerrilheiros, avisou a Polícia sobre suas intenções e características.

Homens do destacamento da PMESP, na cidade de Eldorado, alertados, abordaram a caminhonete com os guerrilheiros, quando eles pararam para abastecer, no posto de gasolina da cidade. Além de estarem em pequeno número (cerca de 6 homens), os Policiais estavam armados somente com revólveres calibre .38 e pouca munição, enquanto os guerrilheiros dispunham de modernas armas automáticas. No tiroteio, metade dos policiais ficaram feridos e os outros foram rendidos.

As informações sobre o tiroteio chegaram via rádio para o posto do Exército em Jacupiranga, que alertado, mandou um pelotão para Eldorado. Também foi acionado o Capitão PM Expedito de Oliveira e Silva, comandante da 7ªCompanhia Independente (7ªCIPM), que enviou alguns de seus homens e mais um reforço de 13 Policiais, do Batalhão “Tobias de Aguiar”, comandados pelo Tenente Mendes Júnior, totalizando 20 homens, embarcados em um caminhão e mais uma viatura C14 descaracterizada, ocupada por homens da 7ªCIPM, comandados pelo 2ºTen PM José Correia Neto, daquela Unidade.

No deslocamento para Eldorado, próximo a cidade de Sete Barras, a patrulha da PMESP foi emboscada pelos guerrilheiros, na estrada enlameada. Depois de uma curva, os guerrilheiros pararam a sua caminhonete, com os faróis ligados, e assim que a C14 e o caminhão, entraram na zona da emboscada, foram atingidos por vários tiros. Os guerrilheiros tinham fuzis automáticos FAL, modelo M964, calibre 7,62mm e metralhadoras INA, calibre .45, revólveres calibre .38 e pistolas Colt .45. Os PMs, além dos revólveres calibre .38, tinham alguns fuzis de ferrolho Mauser, modelo 1908, calibre 7mm e umas duas metralhadoras INA, calibre .45, mas com pouca munição. Uma das armas, por exemplo, que normalmente comportava 30 cartuchos, só tinha 20.

No tiroteio que se seguiu, mais da metade dos Policiais Militares foi ferida e o Tenente José Correia Neto fugiu correndo, mato à dentro. O guerrilheiro Lamarca, mandou então que os Policiais se rendessem, e ordenou que o comandante da patrulha se apresentasse. O Sgt Lino, mesmo ferido, e acreditando que os tenentes houvessem sido mortos, ou fugido, apresentou-se como comandante, ao que Lamarca retrucou que um efetivo daquele porte, era para ser comandado por oficial. O Tenente Mendes Junior, então se apresentou como o comandante da tropa.

Lamarca mandou os guerrilheiros desarmarem os Policiais e, após solicitação do Tenente Mendes, permitiu que os feridos com mais gravidade fossem socorridos até Sete Barras, que não estava muito distante. Lamarca, e outro guerrilheiro, juntamente com o Tenente Mendes, colocaram três feridos na C14 e se dirigiram para Sete Barras, deixando os outros Policiais Militares como reféns, guardados pelos demais terroristas.

Pouco antes de chegar a Sete Barras, Lamarca e o outro guerrilheiro desembarcaram e se esconderam no mato, alertando o Tenente Mendes que se, após socorrer os feridos, ele não voltasse, os outros reféns seriam mortos.

Ao encontrar uma patrulha da PM em Sete Barras, Mendes Junior entregou os feridos e informou sobre o que tinha ocorrido, dizendo que precisava voltar. Os PMs de Sete Barras pediram para ele não fazer isso, que já estavam chegando reforços. O Tenente Mendes Junior, mesmo com a chance de se salvar, disse que tinha que voltar, senão seus companheiros seriam mortos.

No entanto, os guerrilheiros já tinham roubado um caminhão civil que estava passando pela estrada e, após colocarem suas armas e equipamentos dentro dele, abandonaram os Policiais da patrulha do Tenente Mendes Junior, e seguiram adiante, encontrando no caminho o Tenente Mendes, que estava voltando para se entregar. Imediatamente, o colocaram no caminhão, como refém, para passar pelas tropas que eles já sabiam que estavam montando barreiras pela estrada.

As tropas do exército, que vieram em apoio, por falta de coordenação e comunicação, quase trocaram tiros entre eles mesmos, pensando que os do outro lado, fossem guerrilheiros. Uma patrulha do exército chegou a trocar tiros, na escuridão da noite, com uma patrulha da PM, restando feridos, de ambos os lados.

Os guerrilheiros, vendo que poderiam, a qualquer momento, serem emboscados na estrada, abandonaram o caminhão em que estavam e se embrenharam no mato, levando como refém o Tenente Mendes Júnior, sendo iluminados por holofotes, pelas patrulhas do exército. Isso acabou com a organização que eles estavam mantendo até o momento, sendo que dois dos guerrilheiros, Gopfert e Nóbrega, acabaram se desgarrando e posteriormente foram presos por tropas do exército.

Assim que chegou a informação de que a patrulha do Tenente Mendes havia sido emboscada, foi acionado o “plano de chamada” no Batalhão “Tobias de Aguiar”, nas primeiras horas do dia 9 de maio de 1970, véspera do dia das Mães. Algumas horas depois, um efetivo comandado pelo Major PM Roberto Salgado, subcomandante do BTA, com um capitão, quatro tenentes e cerca de 80 praças, se dirigia para a região do Vale do Ribeira.

Figura 10. Alguns dos Oficiais que estiveram no Vale do Ribeira, em 1970. Entre eles, o Tenente Antonio Chiari, agachado, futuro comandante do BTA.

Fonte: Arquivo fotográfico do Gremio “Boinas Negras”.

O efetivo da PMESP participou ativamente das atividades de cerco e busca aos guerrilheiros na mata, ainda mais empenhados em localizar o Tenente Mendes, que era mantido refém. Após alguns dias, receberam ordens para permanecerem em postos fixos, nas cidades da região, e as patrulhas do exército continuariam as buscas nas matas.

O destino do Tenente Mendes Junior e de seu martírio, só seriam conhecidos meses depois, com a prisão de guerrilheiros que participaram da ação. Ao se verem cercados e caçados, logo no dia 10 de março, dia da Mães, os guerrilheiros, escondidos no mato, e temendo serem atrasados e denunciados pelo Tenente Mendes, decidiram, após um “julgamento”, matar o jovem tenente. Para não serem ouvidos tiros, visto que as forças de segurança estarem bem próximas, decidiram executar o oficial com coronhadas de fuzil na cabeça. Após ter o crânio esmagado, Mendes Junior foi enterrado em uma cova rasa.

Os guerrilheiros então continuaram escondidos no mato, se deslocando e fugindo das tropas, até que, em 31 de maio, roubaram um caminhão do exército, que rebocava uma cisterna de água e conseguiram furar o cerco, dirigindo-se para a cidade de São Paulo, onde se dispersaram.

Em 19 de agosto de 1970, um dos guerrilheiros que havia conseguido fugir, Ariston de Oliveira Lucena, foi preso, e após interrogado, contou sobre o que havia acontecido com o Tenente Mendes Junior. Em 8 de setembro, este terrorista conduziu um grupo de Policiais até o local onde o corpo do Tenente Mendes teria sido enterrado. Com muita relutância por parte do guerrilheiro e muito esforço por parte dos Policiais, por ser uma região muito inóspita e difícil de se localizar, encontraram o local onde poderia estar enterrado o corpo. Após cavarem, encontraram o cadáver do Tenente Mendes Junior, em avançado estado de putrefação.

Finalmente, após tanta espera angustiante, os familiares e amigos poderiam prantear e enterrar o corpo do Tenente Alberto Mendes Junior, herói da Polícia Militar do Estado de São Paulo. No dia 11 de setembro de 1970, o corteja fúnebre, com o caixão levado em um caminhão do Corpo de Bombeiros, deixou o Quartel da Luz, sede do 1ºBatalhão “Tobias de Aguiar” e dirigiu-se para o Cemitério do Araçá, sendo o enterro acompanhado, segundo jornais da época, por quase cem mil pessoas.

Conclusão.

Por estes motivos, embora oficialmente autorizada a funcionar, dede 12 de março de 1970, a Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA, necessitou ser reorganizada e em 15 de Outubro de 1970 foi elaborada a Nota de Instrução nº 01-010, assinada pelo Major PM Roberto Salgado, Subcomandante do Batalhão “Tobias de Aguiar” e pelo 1ºTenente PM Albino Carlos Pazelli, oficial P3 interino. Esta nota, em seu conteúdo, praticamente repetia o que havia sido planejado na documentação anterior, de 27 de janeiro de 1970. Desde modo, a data escolhida como aniversário da Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA, foi a de 15 de Outubro (Telhada,2011).

Assim, as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar -ROTA, estão comemorando seus 50 anos em 15 de outubro de 2020. Como acontece com algumas pessoas, ou instituições, podem existir algumas diferenças entre o efetivo nascimento ou criação, e o registro “oficial”, com alguns dias, meses e até anos de diferença.

Não pretendemos fazer aqui um revisionismo histórico sobre a data oficial de aniversário da ROTA, até porque, explicamos, durante o texto, os motivos de haver sido escolhido o dia 15 de outubro.

Não utilizamos os termos criação, ou fundação da ROTA, por sugestão de alguns dos pioneiros, que se encontravam servindo no 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, nos anos de 1969 e 1970 e acompanharam pessoalmente, o “surgimento” da “ronda bancária” e sua natural evolução para Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar”- ROTA.

Segundo eles, a ROTA “surgiu”, como uma necessidade para fazer frente a caótica situação em que se encontrava a sociedade brasileira, naquele período, com as atividades terroristas no âmbito urbano e fazer frente aos roubos à banco, praticados por guerrilheiros bem armados e treinados, e em grande número e organizados, aos quais as patrulhas normais da Força Pública e posteriormente, da Polícia Militar, tinham grandes dificuldades para enfrentar.  

Certamente, o Coronel Salvador D’Aquino foi, como comandante do 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, o responsável por oficializar o patrulhamento de ROTA. Entretanto, não há como dizermos que exista um fundador, ou criador da ROTA, pois esta é resultado do esforço, empenho e sacrifício, de vários Oficiais e de Praças, que viveram aqueles tempos difíceis e procuraram, com os limitados recursos de que dispunham, criar uma resposta inovadora, até os dias de hoje, e tão forte, que perdura por 50 anos e durará ainda mais tempo.

Com relação aos pioneiros da ROTA, evitamos citar nomes, para não cometermos injustiças, pois deveríamos citar, um a um, os Oficiais e Praças que viveram aqueles momentos de 1969 e 1970, para prestar-lhes a justa homenagem. Além disso, temos os casos de algumas pessoas, que chegaram ao Batalhão “Tobias de Aguiar”, meses, e até mesmo, anos depois, e se declaram “fundadores” da Rota.

Não fizemos muitos comentários sobre outras marcas icônicas da ROTA, como a boina negra, utilizada a partir de 1º de dezembro de 1970, assim como o “R” de ROTA, estilizado, símbolo do Policiamento de Rota e o Braçal de couro negro e letras douradas, pois foram criados, depois de 1970.

Mas um ponto importantíssimo, que precisa ser reconhecido e divulgado de forma ostensiva, como fato histórico, é que o 2ºTenente Alberto Mendes Junior, morto no cumprimento do dever e promovido postumamente, a Capitão PM, além de ter sido Oficial do 1ºBatalhão Policial “Tobias de Aguiar”, foi um dos pioneiros da Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” – ROTA. Em honra à sua memória, e dos que serviram com ele, é necessário este reconhecimento.

Este trabalho procurou seguir um padrão de pesquisa historiográfica, baseado nas pesquisas bibliográfica, documental e em entrevistas com pessoas que viveram aquele período.

 Na pesquisa bibliográfica devemos registrar a importância de historiadores na Polícia Militar do Estado de São Paulo, como os Coronéis Edilberto de Oliveira Melo e Sebastião Malvásio, com as várias obras por eles produzidas, e que conseguiram registrar várias passagens, eventos e episódios históricos da Milícia Bandeirante. Entretanto, cabe registrarmos também que, infelizmente, a produção histórica sobre a PMESP caiu muito, de 1980 em diante, com raras e honrosas exceções, como os trabalhos realizados pelo Tenente Coronel PM Sérgio Marques, junto ao Museu de Polícia Militar.

Nesse sentido, agradecemos ao auxílio e orientação, do Coronel PM Paulo Adriano Lopes Lucinda Lopes Telhada, que comandou o 1ºBPChq “Tobias de Aguiar”, de 7 de maio de 2009 a 18 de novembro de 2011, e cumpriu uma das funções de um comandante de uma unidade centenária, como o BTA, que é a pesquisa e preservação histórica, através de seu livro “Quartel da Luz- Mansão da ROTA”.

 Com relação aos documentos, muita coisa foi perdida no incêndio que atingiu o Quartel da Luz, em 2004 e, apesar de nossos esforços, em buscar o depoimento de pessoas que serviam no BTA, em 1969 e 1970, infelizmente vários já faleceram, e muitos estão com a saúde muito debilitada, para serem entrevistados.

Agradeço profundamente ao Coronel Antonio Chiari, presidente da Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPM), um dos pioneiros da ROTA, tendo chegado ao Batalhão “Tobias de Aguiar”, como Aspirante a Oficial, em 1968, e acompanhou o surgimento da “ronda bancária” e da ROTA, além de ter se deslocado para o Vale do Ribeira, tendo vivido pessoalmente todos os fatos aqui narrados. Além disso, o Coronel Chiari foi comandante do 1ºBatalhão de Polícia de Choque “Tobias de Aguiar”, de 4 de novembro, de 1991 até 5 de outubro de 1992. Graças ao incentivo dele, este trabalho foi desenvolvido.

Agradecemos também ao Coronel Walter Criscibene, e ao Coronel Carlos de Carvalho, que foram Capitães em 1970, no Batalhão “Tobias de Aguiar”, aos Coronéis Milton Ferreira de Souza e Américo Tognetti, que foram Tenentes em 1970 no BTA e que, atendendo a uma solicitação do Coronel Chiari, se reuniram na sede da AOPM para conversarmos, e para podermos coletar seus depoimentos, muitas vezes emocionados, sobre os fatos que viveram naquela época.

Devemos também citar, como colaboradores, o Capitão PM Paulo Benedito da Silva Filho, que foi Soldado no BTA, em 1969 e 1970, tendo feito parte da “ronda bancária” e é um dos pioneiros da ROTA, e aqueles, que, mesmo tendo chegado ao Batalhão “Tobias de Aguiar”, alguns anos depois do surgimento da ROTA, nos ajudaram com a pesquisa, como o Tenente Coronel PM Antônio Bezerra da Silva, um dos fundadores e presidente do Grêmio “Boinas Negras”, o Major PM Luiz Carlos de Oliveira, com sua larga sabedoria e experiência, e ao Sargento Maciel, sempre solícito.

A ROTA precisa estar sempre na vanguarda, se preparando, modernizando. Hoje utiliza viaturas modernas, inovações como a Base Tática Avançada (BTA), como centro de comando, controle e comunicações móvel, para operações e ocorrências de gravidade. Emprega drones, para vigilância e monitoramento, em tempo real, em suas operações.

Utiliza veículos modernos, alguns até mesmo blindados. O uniforme mudou, padrão camuflado digital. O colete tático, a prova de balas, pode resistir até mesmo a tiros de fuzil. A boina, dependendo da situação, cede lugar para o capacete a prova de balas.

Figuras 11 e 12. Novas viaturas, armamento e uniforme, são a realidade da ROTA, em 2020.

Fonte: Arquivo fotográfico 1ºBPChq.

Fonte: Arquivo fotográfico 1ºBPChq.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O armamento está entre os melhores do mundo, como a consagrada pistola Glock, modelo 22, calibre .40, os fuzis belgas FN SCAR, calibre 5,56mm e as espingardas semiautomáticas Benelli, calibre 12 e até mesmo metralhadoras leves israelenses Negev, da IMI, calibre 7,62mm e capacidade de  700 tiros por minuto. Além disso, a ROTA está treinando Atiradores Designados, com fuzil de precisão, com luneta, em calibre 7,62mm para neutralizar ameaças até 500 metros de distância.

As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar- ROTA, enfrenta hoje, desafios tão ou mais complexos do que na época que levaram ao seu surgimento, em 1970. O crime organizado utiliza a organização e técnicas aprendidas com os movimentos terroristas subversivos, nos anos de 1970.

 Grupos de 20, 30 e até 40 marginais se organizam para atacar carros fortes, empresas de transporte e até mesmo aterrorizar cidades do interior de São Paulo, atacando quarteis e delegacias, incendiando carros, atacando até quatro agências bancárias, ao mesmo tempo e aterrorizando a população. Utilizam coletes a prova de balas, rádios, veículos blindados, explosivos, granadas, metralhadoras calibre .50 e enfrentam as guarnições de policiamento de área, e, infelizmente, as vezes causam baixas fatais, entre nossos irmãos patrulheiros.

A ROTA chega aos seus 50 anos, atendendo a necessidade para a qual foi criada. Servir e proteger a sociedade paulista, mesmo com o sacrifício da própria vida.

ROTA!!!!!

Referências.

CAMARA, Hely F. da. A Força Pública Paulista. Esboço Histórico. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1982.

DALARI, Dalmo de Abreu. O Pequeno Exército Paulista. São Paulo, Editora Perspectiva, 1977.

IRMÂO, José Aleixo. Rafael Tobias de Aguiar. O Homem, o Político. Sorocaba, Fundação Ubaldino do Amaral, 1992.

MALVASIO, Luiz Sebastião. História da Força Pública. São Paulo, Força Pública do Estado de São Paulo, 1967.

MELO, Edilberto de Oliveira. FILHO, José Canavó. Asas e Glórias de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1978.

MELO, Edilberto de Oliveira. O Santo na Amazônia, e outras narrativas. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1979.

TELHADA, Paulo Adriano L. L. Quartel da Luz, Mansão da ROTA. Histórias do Batalhão “Tobias de Aguiar”. São Paulo, Just Editora, 2011.

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