O que nos trazem as rebeliões de Manaus, Boa Vista e Alcaçuz?

Publicado por Camila Goulart 4 anos atrásNenhum comentário

brasil-rn-rebeliao-alcacuz-sexto-dia-20170119-03-copyAs cenas dantescas dos linchamentos e esquartejamentos ocorridos logo no início do Ano Novo no Complexo Penitenciário Anísio Jobim de Manaus, bem como da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo de Boa Vista, em Roraima e de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, estão por ser mais bem explicadas e interpretadas, para que a sociedade como um todo não venha sofrer mais pelas inconsequências das autoridades que administram os presídios nos estados, bem como aqueles sob os auspícios da União. Os fatos já eram esperados acontecer do modo que aconteceram, não só ao ver as fotografias de dias antes das rebeliões, divulgadas dos próprios presídios, colhidas pelos celulares dos presos, que ostentavam um sem número de instrumentos de violência, mas porque havia históricos suficientes de embates entre duas das maiores facções criminosas do país ainda para serem “ajustados”.

Além de antecedentes significativos do desinteresse e insensibilidade das autoridades, outros fatores perversos são ingredientes para o incêndio de um sistema, que é chamado de tal nome, mas se sistematiza algo, é justamente o do crime que consagra a anomia que o próprio estado vive.

Estas organizações, do tipo mafioso, tinham ensaiado acordo de operação de controle conjunta da maior entrada de entorpecentes no país, via eliminação de grupo privado que detinha o domínio da rota conhecida de Pedro Juan Caballero no Paraguai, divisa seca com o Brasil, pela cidade de Ponta Porã, estratégica para que o tráfico de drogas alimentasse a demanda do consumo de drogas para os grandes centros Rio e São Paulo, tudo a demonstrar o nível do próprio crime organizado no país.

Foi desta forma que estas organizações resolveram em conjunto eliminar  Jorge Rafaat Tounami, empresário nascido no Brasil, de descendência libanesa, que tinha comércio legal de pneus em Pedro Juan Caballero, com o qual dissimulava o controle das operações de distribuição de drogas para o Paraguai, Bolívia, Brasil e outras quadrilhas que se interessavam pelo lucrativo negócio do tráfico. No dia 15 de junho de 2016, em ação cinematográfica, com o uso de uma metralhadora .50, trazida do Rio de Janeiro, os componentes destas duas organizações mataram o detentor do comércio regional de droga, portal do fornecimento de interesse de todas as facções. Acontece que o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, não cumpriu o acordo com o Comando Vermelho (CV) e passou a operar o polo de distribuição sozinho, ao criar o braço comercial ilegal internacional autodenominado NARCOSUL.

Diversas execuções se processaram no decorrer desta mudança de distribuidor, tal como, por exemplo, a de Joseane Vanessa Ziglio, esposa do traficante Sérgio Lima dos Santos, morta em frente aos filhos, com mais de 20 tiros, por Altair Bello, capanga de Rafaat e agora a serviço do Comando Vermelho, inimigo mortal de Harvis Jimenez Pavão, preso em Assunção e líder principal do Narcosul para a distribuição das drogas para os aliados e para o próprio PCC.

O fechamento do fornecimento de entorpecente para o CV do Rio de Janeiro, fez com que se acirrassem as disputas com o grupo Amigos de Amigo (A de A), pois este tem relação com o PCC e disputa áreas de atuação nos arrabaldes cariocas com o Comando Vermelho. Desta situação só se pode esperar vivenciar uma guerra ainda maior entre as organizações, por sobrevivência e domínio.

A Família do Norte (FDN), organização que divulga ter mais de duzentos mil afiliados no Norte e no Nordeste, como aliada do CV, passa a ser inimiga do PCC e se transforma em uma alternativa para fornecimento de droga para o Rio de Janeiro, pela ligação que tem com cartéis da Colômbia e do Peru e mesmo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A frase ouvida “Se bem conheço a regra, preparem-se porque o PCC, estraçalhado na rebelião de Manaus, patrocinada pela FDN e pelo governo do AM, não vai deixar ficar assim” deveria ter sido analisada de modo cuidadoso por causa dos antecedentes do PCC, com enfrentamentos até contra a PM em São Paulo, situação de emergência que exigiria cuidado oportuno e redobrado, o que não ocorreu.

Para desespero do cidadão que paga impostos e é honesto, outras situações são intrínsecas, tal como a dúvida de que a Polícia Militar do Amazonas não poderia intervir para pelo menos revistar os presos antes do fatídico evento, por medo declarado do Secretário de Segurança Pública, bem como do Secretário de Administração Penitenciária, ambos delegados de Polícia Federal, que ocorresse um Carandiru por lá. Passado o morticínio, que instituição substituiu a empresa que administra o Presídio, de significativo nome “Humanizzare“? Exatamente a PM, que retirada de suas funções nas ruas ainda terá que cumprir escalas extras para atender a demanda do serviço normal de Segurança Pública e guarda de presídios, até que se encontrem outras soluções. A Humanizzare em 2016 recebeu do Estado do Amazonas mais de 400 milhões pelos contratos de administração de presídios. Também foi uma das maiores contribuintes do caixa de campanha do atual governador.

Como não bastassem os efeitos mais graves de situações desta envergadura, absolutamente contrárias ao mínimo estágio de civilização de nossa sociedade, nos vemos diante da mais pura barbárie, com repercussão das cenas fotografadas, filmadas e passadas para o mundo todo, ainda somos brindados com reducionismos que procuram retirar a responsabilidade pessoal das autoridades e também dos celerados que promoveram os atos de violência, com afirmações sobre responsabilidade pela mídia, como se ninguém devesse ter a mínima preocupação, pois a culpa, se é que ela existe, é de alguma COISA e não de pessoas. Tal como esclarece a Juíza de Direito Ludmila Lins Grilo, de Minas Gerais, ao identificar a tentativa da mídia em influenciar o imaginário coletivo com frases do tipo “Hoje em dia a culpa não é do preso violento – é do SISTEMA”; “A culpa não é do motorista imprudente – é do ÁLCOOL”; “A culpa não é do ladrão mau-caráter – é da POBREZA”; “A culpa não é do assassino cruel – é da INTOLERÂNCIA”; “A culpa não é do adolescente infrator perverso – é da DESIGUALDADE”, cada vez mais se omite de aplicar o corretivo necessário nos responsáveis, que direta ou indiretamente são pagos para que se culpem as circunstâncias, nunca as pessoas que praticam os crimes ou os que se omitem e permitem que eles ocorram, numa sociedade conformista acostumada com a impunidade, que nos leva ter 164 homicídios por cada dia neste país do faz de conta.

Vai se longo tempo nos idos de 1992, quando a então Casa de Detenção de São Paulo tinha por volta de 8 mil presos entre provisórios e já condenados, juntos, sem a observação de tipo penal ou faixa etária, amontoados, em local que caberia pouco menos de 2 mil detentos. E a história é conhecida. Somente respondem pelos crimes dos 111 mortos os policiais militares que receberam determinação para adentrar e restabelecer a ordem. E os demais responsáveis nunca foram sequer cobrados.

Já que a PM do Amazonas não adentrou ao Complexo Penitenciário Anísio Jobim, nem a PM de Roraima adentrou à Penitenciária Agrícola de Monte Cristo em Boa Vista, tal como só agora, passados tantos dias da rebelião em Alcaçuz, a PM é chamada, o mesmo ocorrerá com os mortos destes presídios, pois ninguém será responsabilizado, nem policiais, nem aqueles que decidem, nem os que aceitam que nada pode ser feito, nem os que culpam o Sistema, nem os que vilipendiam vidas, nem muito menos os que coonestam com a barbárie, quando não fazem dela a própria profissão, mas se colocam como vestais ao criticar e condenar o horror do qual são os principais responsáveis.

Cabe a conclusão de que cada qual deveria com muita humildade vestir a sua carapuça, pois os descalabros, longe de serem catalogados na idade média, são de tal “trogloditismo”, que os nossos ancestrais bárbaros só adotavam tamanho nível de crueldade quando se alimentavam da carne dos vencidos, canibalismo portanto, muitas vezes por motivos religiosos esdrúxulos, com cuja forma de agir absolutamente não podemos mais aceitar ou conviver.

Onde estão os valores conquistados nestes dois últimos milênios? Onde estão os requisitos morais, intelectuais e espirituais para garantirem o mínimo de profissionalismo das funções estatais? Por que tal não ocorre nos presídios federais? Por que há tamanha corrupção dos agentes prisionais, como explicado na tentativa de justificar os descasos do Estado Brasileiro? Vale para estas abomináveis situações o ditado consagrado pelos tempos afora e sempre consequente de Kung Fu Tsé (Confúcio): “funcionários mal pagos não são bons funcionários”. Em São Paulo ou em qualquer Estado da Federação, querer que quem tome conta dos criminosos ganhe algo em torno de um mil e setecentos reais, será apostar que as mínimas regras de disciplina e de ordem, muito menos o interesse da sociedade, nunca prevaleçam sobre desastres desta envergadura, que nos assustam, nos aviltam e nos destroem ética e espiritualmente e que poderiam, como podem, ser prevenidos.

Cel PM Flammarion Ruiz
Assessor Institucional 

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