DISCURSO PROFERIDO POR OCASIÃO DO 40º º ANIVERSÁRIO DE INGRESSO NO CPFO – APMBB, 16 DE FEVEREIRO DE 2017

Publicado por Camila Goulart 4 anos atrásNenhum comentário

academia 180Caro Coronel Celso Luiz, senhores oficiais, senhores praças, queridos familiares e professores, autoridades e convidados, muito obrigado por nos possibilitar este encontro.

Caríssimos irmãos Alunos Oficiais, esperança de uma geração que nos sucede. É com vocês que desejamos compartilhar este momento em especial

O pátio externo ainda é o mesmo daquela manhã de 16 de fevereiro de 1977. Só que agora, foi batizado e ganhou uma estátua, que reproduz a efígie altiva de nosso fundador, o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.

A alameda ainda é a mesma. Pelo chão sagrado que percorremos juntos pela primeira vez, há quarenta anos – e que um do nossos – diz a lenda –  percorreu de skate, para delírio dos veteranos – somente as viaturas foram adicionadas, recordando que esta Escola forma profissionais que reconhecem que “a grandeza está em servir”.

Nossa alma, marcada pelo ferro em brasa que nos tornou filhos desta Casa, exulta de alegria e chora de saudade.

Alegria em rever os companheiros, em rever os nossos primeiros Comandantes – Tenente Davi Gaspar Ribeiro de Faria, Tenente Paulo Galante, que nos falava em ecologia e sustentabilidade, sobre a água a floreta e os animais em extinção quando o mundo ainda não atentava a esses temas. Comandante, peço ao Senhor desculpas de público, porque nossa geração ainda não estava preparada para as suas lições. Agradeço a Deus por havermos percebido em tempo e termos a ventura de lhe dizer: muito obrigado!

Nosso grande Comandante e amigo Capitão Amauri de Araújo, outro rei da paciência.

Alegria em reencontrar os nossos mestres, que mudaram nossa percepção de mundo, exigindo de nós além do que acreditávamos poder oferecer, mas que, com orgulho, fomos capazes de atender: Seizen Yamashiro, o mago que conseguiu tornar inteligível a matemática e que depois nos acompanharia e aconselharia no CBO e nos vestibulares, Tenente Odair de Oliveira Conceição, que transformou nossa geração em leitores vorazes, tenente João Antão Fernandes, que nos ensinou a solfejar com o Paschoal Bona e que nos redimiu do lodo da ignorância, concedendo meio ponto aos que se dispusessem a assistir concertos de música erudita nos finais de semana, no Teatro Municipal.

Alegria pelo Coronel Enjolras, simpático e profundo sabedor das coisas da química, que nos ensinou o que é potencial hidrogeniônico.

Saudades do mestre Alfonso Sestini, com seu grande coração, que deixávamos louco enquanto tentava nos ensinar inglês.

Alegria em rever o velho pátio, com seus bancos de caquinhos vermelhos, onde os tenentes subiam e falavam, e que, generosamente, nos concediam o direito de escutar.

Alegria em rever o rancho, que vimos antes, durante e depois da reforma, onde os veteranos nos ensinaram a  tomar “milk shake” e os atletas nos despertavam inveja, por seu lauto café da manhã, com queijo, frutas, presunto e mel e onde nós, não abençoados pela deusa Niké, por vezes, até podíamos repetir a mexerica.

Alegria em recordar as corridas pelo Horto e em rever a floresta amiga, com suas trilhas, seus mistérios e lendas, o capitão Stattmiller sem cabeça, a alameda com suas árvores tão belas, “vencedoras do tempo e as procelas”.

Rever o estande de tiro onde o tenente Zagni nos purificava com gás, antes da sonhada liberação do meio-dia da sexta, rumo ao colo das namoradas ou ao conforto da casa materna.

Alegria em rever nossos alojamentos, onde choramos, saímos no tapa e resolvemos pendengas, nos desentendemos e nos reconciliamos e selamos esta amizade profunda, sonhamos e aprendemos a engraxar botas, próprias e de infindáveis veteranos, a passar roupas (idem), a pregar botões, onde cosemos e amalgamamos amizades que durarão até depois de nossa vida terrena.

Alegria em rever os banheiros onde, chuveiros abertos e camisetas tapando os ralos, alguns de nós aprenderam a nadar em 4 estilos nas gélidas noites de abril, sob a segura orientação técnica de nossos veteranos.

Alegria em rever o auditório e os filmes do exército americano com o Soldado Benny, projetados pelo Amorim que os consertava com fita adesiva nas muitas vezes em que se rompiam.

Melancolia e saudade em rever os passadiços, onde confidências foram trocadas e onde, na madrugada, mirávamos a avenida Água Fria, os semáforos multicores e a promessa de que, muito além, o lar familiar ainda nos aguardava.

Melancolia e saudade em lembrar das aulas do francesinho, do Renato Grisi (“filosofia racional e analítica”), do Historinha (“ vocês são muitos novos para pensar nisso, mas a Marquesa de Santos era um Chuchuzinho!”), do Eliphas Levi Guimarães (“se vocês ainda não entenderam, tenham paciência, porque eu só entendi isso no doutorado em física”), do tenente Silvio Cavalli, um lorde mesmo quando nos disciplinava, do tenente Ferarrini, prometendo abrir sua mala de ferramentas e nos aconselhando a ousar e estabelecer padrões elevados e a namorar meninas que residissem próximo à APMBB, para termos onde jantar de graça nos raras liberações.

Saudade em lembrar do tenente Paulo Regis, amigo e refinado,  criando eventos para que não oprimíssemos os bichos nem nos metêssemos em confusão em 1978, enquanto o CFO saia em jornada, o que não nos impediu de oferecermos a eles uma aparição fantasmagórica de Miguel Costa e de Marcondes Salgado.

Melancolia e saudade em lembrar das aulas de tiro do irrepreensível profissional que era nosso tenente Bastos e das terças a noite, quando tínhamos aulas opcionais de religião, com o capelão Padre João Vilano, modelo de fraternidade e bondade, com o Capitão Pastor Paulo de Tarso, nosso santo Comandante, e com o Tenente Jorge Luiz, caridoso e amigo como o kardecismo que ensinava.

Como éramos meninos, então: usando espadim às escondidas, antes de recebê-lo solenemente, só pra contar vantagem para as debutantes.

Vibramos com as obras do motel cujas fundações se erguiam vizinhas à Academia, e que depois nos frustramos ao descobrir que não seria motel, mas o restaurante “Arcos”.

Saudade do sabor dos doces caseiros, quando assaltávamos os armários do amigos nos LCs, em busca de paçoquinha ou goiabada, e de fugir para passear na Paulista, bater o carro e voltar escoltados pelo tenente, para diversão dos que ficaram e nos viam chegar de Kombi.

Alegria por começarmos a aprender mais sobre essa selvagem, louca e maravilhosa aventura chamada vida, montando nossa biblioteca a prazo, com os livros do Seu Wilson, ouvindo os conselhos sábios de nossos gurus que vieram da tropa: Alaor, nosso sempre Zero Um, Antonio Dias, Ciochetti, Rohrer, Siqueira, Mosqueira, Paulão, Getúlio, Ferraz, Martins de Oliveira.

O orgulho de, pela primeira vez, ver o uniforme, com o nome costurado, estendido sobre a cama de nossa mãe orgulhosa.

O primeiro uso do bibico, a continência prestada com ambas as mãos e a paciência de monge do tenente Davi em nos ensinar. E de novo.

O ralo que levamos do tenente Gobbi quando saímos da Academia no ônibus da PM pela primeira vez e, felizes, fomos mexendo com as meninas que circulavam pelo terminal Santana até chegarmos à Escola de Educação Física, onde iriamos ter aula de natação em pleno mês de junho e o Cardoso teve hipotermia.

Na volta, o tenente nos obrigou a ler o que estava escrito na lateral do ônibus (Polícia Militar), nos explicou que nosso mau comportamento afetada a toda nossa Instituição e quase tirou nossa pele, fazendo-nos rastejar e marchar, cantar, correr, agachar, subir…uma aula prática do método natural de Herbert ao vivo, no fundão da Academia.

A pizza no grupo Sergio, o chopp no bar do Justo, os passeios pelo shopping Santana, os almoços na Polar e no Comércio. Os primeiros amigos veteranos, hoje nossos irmãos.

O Pinholi alertando-nos gentilmente sobre a falta de higiene na casinha do laranjeira, o português que trocava nossos cheques, o MP Lafer do Galan e o Chevette cor de rosa do Hermenegildo.

O estudo noturno livre obrigatório, o chá brochante, o frango atropelado, o salitre (verdade ou folclore?), a granada, a era da salsicha, o feijão com rochas e outros minerais, a salada viva que rastejava, o mingau com proteína.

Nosso azulão impecável, o sete de setembro onde marchamos duas léguas mas recebemos como conforto um X-Meganha, uma maçã, uma barrinha de chocolate e um Glut. E o Seu Carlos, nosso tintureiro, irrepreensível no cuidado de nossas fardas e que, nas horas de folga, lembrando suas aventuras como marinheiro do Imperador nas batalhas contras os americanos, ainda nos ensinava secretamente a cantar músicas marciais e o Hino do Japão: “Kimigayo wa!”

Nossos eternos Comandantes: Cel Irahy (“vê como fala com os cadetes, maestro!”, “Oh, seu Taekwondo, tira essa droga do pátio que a tropa está chegando!”), Coronel Bonifácio (“isso não serve prá nada, vão dormir que ocês são novos”), Major Vieira (“ a defesa defende, o ataque ataca e o goleiro segura todas”), o amigo Major Felício, os refinados e simpáticos Major Pinho e Coronel Helton, o Coronel Fragoso, que nos comoveu a todos quando chorou, em seu último dia, despedindo-se de sua “Força Pública”.

Nossa emoção em entoarmos pela primeira vez o Hino da Escola de Oficiais, quando os veteranos nos confortavam e animavam, lembrando que faltavam apenas 1765 dias para o Aspirantado.

Nossos entes queridos que estavam conosco e depois partiram, rasgando nossos corações de saudade: pais e avós, irmãos, tios, pelos quais daríamos tudo hoje para estarmos juntos por mais dez minutos, acariciando seus cabelos e beijando suas faces.

Os caminhos tortuosos da vida, que nos afastaram e depois nos reaproximaram, sem que nem por um instante nos esquecêssemos uns dos outros.

Nossos camaradas, que nos antecederam na caminhada rumo ao céu dos soldados, onde existe cerveja à vontade e onde podemos contar qualquer mentira que todos acreditam: O Siqueira, o Mosqueira, o Hilsdorf, o Tucci, o Ubirajara, a formiga mais querida do CP e que faz aniversários neste dia.

Que notável é a vida: Tanto tempo transcorreu mas ninguém envelheceu, nossos corpos se transformaram mas ainda somos as mesmas almas e os mesmos corações, vibrando como meninos ao revivermos aqueles momentos gloriosos: Como é possível que o tempo não haja passado no calendário fraterno de nossos jovens corações sesquianos?

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