A contribuição da PM em favor do esporte

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POR QUE MEU PAI POSTIÇO RECEBEU A MEDALHA “CEL DELFIM CERQUEIRA NEVES”

Eu era Tenente da EEF quando o conheci na redação de “A Gazeta Esportiva”, no momento exato em que ele exultava pela criação da “Operação Juventude”, competição para talentos de atletismo. Nessa época, eu nem imaginava que ele se transformaria no meu Pai postiço! Nem mesmo sabia que ele seria testemunha presencial de quase um século da história da Polícia Militar, conforme revela neste texto publicado pouco antes do centenário da Escola de Educação Física, Pioneira do Brasil. Também não podia adivinhar que ele viria a ser o fundador do Panathlon Club São Paulo (primeiro do País) do qual participaria também o Cel Delfim Cerqueira Neves, na categoria desportos militares, que viria a dar seu nome à medalha que ele acaba de receber.

Cel Corrêa de Carvalho
Interior Ativo AOPM

 

 

A CONTRIBUIÇÃO DA PM EM FAVOR DO ESPORTE

Henrique Nicolini

Quando a Escola de Educação Física da Polícia Militar está nas vésperas de completar um século de existência, senti-me na obrigação de escrever algo sobre a participação daquele estabelecimento de ensino no esporte brasileiro e, também sobre a extraordinária contribuição da nossa Polícia Militar à sociedade paulista, missão que transcende amplamente a sua tarefa precípua de manutenção de ordem pública.

A minha condição de jornalista, há mais de seis décadas militando em um jornal de esportes, proporcionou-me um mirante para observar a ação daquela grande corporação em favor de todos os paulistas.

Antes de entrar no terreno mais especializado da sua atuação direcionada aos esportes, desde o tempo em que essa corporação era chamada de Força Pública, é justo que se demonstre ao leitor a importância total da nossa Polícia Militar.

Criada em 1831, pelo Brigadeiro Tobias de Aguiar, aquela corporação era uma força militar do Estado de São Paulo, com respeitável presença em nossa sociedade desde a sua criação. Ela demonstrou toda a sua grandeza na Revolução de 1932, quando integrou o exército constitucionalista em várias frentes. De 9 de Julho a Setembro, demonstrou bravura, tendo ao seu lado também voluntários cidadãos patriotas, conscientes de seu ideal, mas com total inexperiência militar.

Hoje, seus bombeiros mantêm o maior índice de admiração do nosso Estado, não só pelo heroísmo do combate às chamas, como também pela dedicação no atendimento às vítimas de acidentes e de problemas de saúde.

No decurso do século passado, a Força Pública transformou-se em Polícia Militar. O aumento da população e a conseqüente ampliação dos problemas sociais e de criminalidade exigiram que aquele contingente de bravos soldados assumisse a função policial, responsabilizando-se por uma luta tenaz que se torna cada dia mais intensa: a do combate ao crime e à violência.

Trata-se de uma guerra que, como as demais, apresenta autores e vítimas de ambas as partes. No Brasil, o crime organizado assumiu tal dimensão que os bandidos já contam com tecnologia de primeiro mundo e armamentos muitas vezes superiores aos da própria P.M.

Nesta competição que ocupa diariamente um grande espaço da mídia, nem sempre a nossa gloriosa Policia Militar recebe a necessária simpatia. Se há uma vítima de um projétil, na quase totalidade das vezes o fato é atribuído a um policial e nunca a um meliante. Existe uma permanente atitude de defesa em relação ao bandido morto e muito raramente é destacada a valentia de um policial que arrisca a vida diariamente, ou o nome daqueles que tombam em cumprimento do dever. Em nosso país existem ONGS para todas as finalidades, mas nenhuma ainda foi criada para exaltar os heróis que morreram em favor da própria sociedade.

O mausoléu da PM, no Cemitério do Araçá, deveria ser considerado um monumento público respeitado pelos paulistas, e digno de uma oração de cada pessoa que por lá passasse.

O LADO SOCIAL

A missão de nossa Polícia Militar ultrapassa o combate do crime. Esta corporação possui uma gama enorme de serviços de natureza social e cultural que são acrescidos idealística e voluntariamente por policiais (femininos e masculinos) que se dedicam a ensinar música a crianças e jovens carentes e a contar histórias a futuras mamães, até uma obra sem precedentes em favor do nosso esporte, que é o verdadeiro tema deste texto.

Pode-se ainda incluir, no acervo de aspectos que contribuem para a excelente imagem da P.M, a sua Corporação Musical, presença essencial em qualquer solenidade cívica de alta importância, multiplicadora de audição do hino nacional brasileiro. Seu nível artístico lhe permite, inclusive, promover concertos com grande audiência. O toque de sua banda de clarins transmite emoção a quem quer que o ouça.

O ESPORTE

A participação da P.M. na área do esporte começou há um século, como decorrência da vinda de uma Missão Militar Francesa que nos visitou no início de 1902.

Como conseqüência de todo o ensinamento militar então ministrado, ela deixou clara a importância da Educação Física e do esporte, recém-chegado ao nosso estado, transmitindo aos militares da época os ensinamentos pedagógicos que já eram comuns na França do início do século, inclusive o bailado usado na escola militar de Joinville Le Pont, até hoje cultivado pela P.M.

A Escola de Educação Física da então Força Pública foi criada em 1910, e no próximo ano comemorará com extensivo programa os seus 100 anos de existência.

Ela tornou-se, em sua especialidade, a escola pioneira de todo o Brasil, privilégio reconhecido pelos historiadores desta área. Ela participará, em 2010, da Ordem das Entidades Centenárias instituída pelo Panathlon Club São Paulo.

Em suas duas primeiras décadas de existência, a E.E.F.P.M tornou-se um importante núcleo difusor da esgrima no nosso país, pelo trabalho brilhante e constante de dois mestres: Aníbal Marcondes do Amaral e Ugler Matt.

Quando o Rio Tietê ainda não havia sido retificado, e serpenteava pela área hoje ocupada pela Avenida Cruzeiro do Sul, foi formada uma espécie de clube, freqüentado pelos oficiais e praças da Força Pública. Eles participavam da tradicional “Travessia de São Paulo a Nado” e de vários outros eventos esportivos efetuados em nosso estado.

REDUTO DO ATLETISMO

Quando o pedestrianismo começou a se difundir em nossa capital, como resultado de provas de caráter popular promovidas de forma pioneira por diversos órgãos jornalísticos, e principalmente pela A Gazeta Esportiva, a Policia Militar tornou-se um reduto desta modalidade, fornecendo ao atletismo nacional nomes do gabarito de Luiz Gonzaga Rodrigues, Sebastião Alves Monteiro, Joaquim Gonçalves da Silva e outros astros.

A própria Polícia Militar criou eventos que figuram entre os mais conhecidos da Federação Paulista de Atletismo, como a Prova Pedestre Gonzaguinha. Ela também cedeu figuras importantes para a administração esportiva, como os coronéis Francisco Bianco Jr. e Sebastião Correa de Carvalho, que foram presidentes da Federação Paulista de Atletismo, e Nestor Soares Públio, figura referencial da ginástica em São Paulo e no Brasil e respeitado em nível internacional, além do Cel. Altmann, presidente da nossa Federação de Tiros.  É igualmente proveniente da escola da P.M. o Cel. e deputado Delfim Neves, defensor dos esportes que chegou também a ser chefe da Casa Militar do Governo Estadual, e grandes estudiosos da história, como os coronéis Arrison de Souza Ferraz e Esdras de Oliveira.

Hoje, a sua estrutura precária que existia nos primeiros tempos foi substituída por ginásios, piscinas, pistas e outras instalações de alto nível, condizentes com a grande tradição daquela Escola no contexto do esporte nacional.

A POLÍCIA MILITAR E A GAZETA ESPORTIVA

O autor destas linhas foi testemunha privilegiada da contribuição da Polícia Militar de São Paulo, em seus primeiros anos de militância na A Gazeta Esportiva, iniciados em outubro de 1948, quando ela passou a circular diariamente.

O espírito empreendedor de seu diretor, Carlos Joel Nelli, levou este jornal a obter o recorde de circulação nacional, que chegou a ultrapassar 400 mil exemplares nos dias subseqüentes às nossas grandes vitórias nos campeonatos mundiais de futebol.

Desde 1925, a A Gazeta Esportiva vinha promovendo a corrida de São Silvestre, iniciativa relativamente discreta, quando a partir da metade dos anos 40 do século passado, a prova tornou-se internacional. À medida que este evento crescia na aceitação pública, ia também ganhando esmero a sua implementação, quase toda realizada em parceria com a P.M.

O apoio não consistia, como outrora, somente no isolamento do público nos locais de partida e chegada, mas abrangia também muitos outros itens, como a presença de motociclistas abrindo ruidosamente a passagem para os atletas. A colaboração era completa pela colocação de cordas em todo o percurso, acrescida por uma atmosfera festiva proporcionada pela corporação musical, animando o local da chegada em torno do pódio, onde era efetuada a cerimônia de premiação, pela execução do hino nacional e ainda o hino do país do atleta vencedor.

Só por este detalhe pode-se imaginar o esforço prévio do maestro regente, tendo de ensaiar o hino de mais de duas dezenas de nações cujos atletas poderiam triunfar na mais famosa prova pedestre do mundo naquela época. A corporação musical da P.M é composta por várias sessões, mas era na São Silvestre, uma das poucas ocasiões em que elas tocavam conjuntamente. Inclusive com a presença do grupo de clarins que transmitia ao espetáculo a grandiosidade de tudo o que estava acontecendo.

Um mês antes da prova, em um almoço no restaurante Roof de A Gazeta, reuniam-se a direção de A Gazeta Esportiva e o “staff” da polícia militar para traçarem os planos do evento que se realizaria à meia noite, do dia 31 de dezembro, dia de S. Silvestre, comemorando o advento de um ano novo.

OPERAÇÃO JUVENTUDE

A Polícia Militar também participou de outra parceria com a A Gazeta Esportiva, um sonho utópico que acabou se tornando realidade: colocar 10.000 jovens na pista, competindo pela primeira vez numa corrida, num salto ou em um arremesso.

Este projeto, denominado “Operação Juventude”, deu tão certo logo na sua estréia que, no quinto ano de realização seguida após o seu lançamento, acabou congregando mais de 500.000 participantes. O plano consistia na realização de várias competições, em cidades diferentes do interior do Brasil e em bairros da capital, após as quais resultados obtidos pelos competidores eram classificados em um único “ranking” para uma grandiosa final em São Paulo.

A logística exigida para esta realização era extraordinária, pois implicava na arbitragem de meio milhão de participações, seguida de uma classificação final, feita manualmente, num momento em que os computadores não estavam ainda disponíveis.

A Escola de Educação Física da Policia Militar encarregava-se da arbitragem de muitas das eliminatórias e principalmente da grande final, realizada com grande pompa na pista do Centro Olímpico, no Ibirapuera, com o comparecimento de altas autoridades e de um público enorme e, naturalmente, os 16 melhores de cada prova do ranking classificatório.

Além de todo o corpo docente e discente da Escola, integrava o espetáculo final a Banda Musical, que tocava o hino nacional e fornecia o som para o grandioso desfile dos finalistas provenientes de quase todos os estados do Brasil. Quando a competição terminava, os clarins davam as despedidas com o seu toque de silêncio, anunciando a efetivação de uma nova disputa no ano seguinte.

Até no momento de proporcionar uma viagem prêmio aos jovens que tivessem obtido as melhores classificações na final da Operação Juventude, a P.M estava presente, indicando o Cel. Niomar Cyrne Bezerra, do Batalhão Tobias de Aguiar para chefiar a delegação de vitoriosos.

Uma iniciativa como esta difundiu o atletismo, encaminhou definitivamente muitos jovens para a prática desta modalidade e, naturalmente, evitou que outros tantos trilhassem as veredas do descaminho. Era mais um trabalho esportivo e social da Policia Militar e de um jornal identificado com a realidade nacional.

A Polícia Militar, desenvolvendo a Operação Juventude juntamente com a A Gazeta Esportiva, concretizou a sua própria imagem de entidade que sempre contribuiu para a educação do jovem e para a divulgação do esporte, pois esta parceria também teve continuidade em iniciativas de outras modalidades esportivas, como a tradicional Prova Cliclística Nove de Julho e os Campeonatos Populares de Pugilismo, Futebol de Salão, Basquete e Vôlei.

Por quase uma década a P.M tornou possível a realização da Copa Arizona, o maior campeonato de futebol amador do mundo, que movimentou mais de 3000 times em todo o Brasil e que foi inaugurado com um desfile de jogadores na Avenida São João de mais de duas horas de duração, tal o número de participantes. Deu, igualmente, tranqüilidade para que se efetuassem jogos do certame, alguns com mais de 20.000 espectadores.

Hoje, a nossa Polícia Militar fica com a parte mais penosa das partidas de futebol oficial – o policiamento. Enquanto diretores, jogadores e técnicos são endeusados pela mídia por sua atuação, o foco fica na falta de boa vontade para com a nossa gloriosa corporação. A mídia procura quase sempre focalizar flagrantes de violência, quando policiais enfrentam espectadores desequilibrados que extrapolam suas paixões por seus clubes, ou aqueles que freqüentam os estádios somente para extravasar de forma violenta, revoltas e frustrações do cotidiano.

Embora numa corporação de mais de cem mil homens, sempre existam alguns que contrariam o paradigma que deles se espera, se avaliarmos a nossa P.M em seu conjunto, todos os paulistas devem ter orgulho da corporação militar que os defende.

Este artigo é de autoria de quem testemunhou, em quase toda a sua vida, a grandiosidade do trabalho da Polícia Militar em favor da sociedade, escrito especialmente em homenagem ao centenário de fundação da sua prestigiosa Escola de Educação Física, a pioneira do Brasil.

Publicado em 31 de agosto de 2009 em www.gazetaesportiva.net

Henrique Nicolini

 

Categoria:
  Notícias
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